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Madeira: Como Fazer a Contabilidade de uma Madeireira com Estoque, Impostos e Balanço

Postado por

A madeira movimenta uma cadeia econômica muito maior do que pode parecer à primeira vista.

Antes de uma tábua, viga, caibro ou prancha chegar a uma construção, a madeira pode passar pela extração, transporte, armazenamento, serragem, secagem, beneficiamento, classificação e comercialização.

E cada uma dessas etapas pode gerar efeitos na contabilidade de uma madeireira.

Para entender isso na prática, vamos acompanhar a história fictícia da empresa Madeira Forte Comércio e Beneficiamento Ltda., criada para comprar madeira em tora, transformar essa madeira em produtos serrados e posteriormente realizar a venda.

Durante o estudo veremos:

  • compra de madeira;
  • formação do estoque;
  • frete da madeira;
  • máquinas e equipamentos;
  • transformação da tora em madeira serrada;
  • custos de produção;
  • perdas e rendimento da madeira;
  • venda da madeira;
  • impostos;
  • Simples Nacional;
  • ICMS e IPI;
  • CBS e IBS na Reforma Tributária;
  • lançamentos contábeis;
  • DRE;
  • Balanço Patrimonial.

O objetivo é mostrar que faturamento não é lucro e que administrar uma madeireira exige acompanhar não somente o dinheiro, mas também o caminho percorrido pela madeira dentro da empresa.

Aviso importante: este é um estudo fictício desenvolvido exclusivamente para fins educacionais. Valores, empresas e operações foram simplificados. A tributação real de uma operação com madeira depende, entre outros fatores, da classificação fiscal do produto, origem da madeira, estado de origem e destino, regime tributário, atividade exercida e legislação vigente.

Conteúdo

Plano de contas usando no exemplo

CódigoConta
1ATIVO
1.1ATIVO CIRCULANTE
1.1.01Caixa
1.1.02Bancos
1.1.03Clientes
1.1.04Estoque de Madeira em Tora
1.1.05Produtos em Elaboração
1.1.06Estoque de Madeira Serrada
1.1.07Estoque de Madeira Beneficiada
1.1.08Tributos a Recuperar
1.2ATIVO NÃO CIRCULANTE
1.2.1Imobilizado
1.2.1.01Máquinas e Equipamentos
1.2.1.02Veículos
1.2.1.03(-) Depreciação Acumulada
2PASSIVO
2.1PASSIVO CIRCULANTE
2.1.01Fornecedores de Madeira
2.1.02Salários a Pagar
2.1.03Encargos a Recolher
2.1.04Tributos a Recolher
2.1.05Energia a Pagar
2.1.06Fretes a Pagar
2.2PASSIVO NÃO CIRCULANTE
2.2.01Empréstimos e Financiamentos de Longo Prazo
3PATRIMÔNIO LÍQUIDO
3.1.01Capital Social
3.1.02Lucros ou Prejuízos Acumulados
4RECEITAS
4.1RECEITAS OPERACIONAIS
4.1.01Receita com Venda de Madeira
4.1.02Receita com Venda de Madeira Serrada
4.1.03Receita com Venda de Subprodutos
5CUSTOS
5.1CUSTOS DA MADEIRA E PRODUÇÃO
5.1.01Custo da Madeira Vendida
5.1.02Mão de Obra da Produção
5.1.03Energia da Produção
5.1.04Frete sobre Compra de Madeira
5.1.05Manutenção de Máquinas
5.1.06Depreciação Industrial
6DESPESAS
6.1DESPESAS OPERACIONAIS
6.1.01Despesas Administrativas
6.1.02Fretes sobre Vendas
6.1.03Despesas Comerciais
6.1.04Despesas Financeiras
6.1.05Tributos sobre Vendas

Fase 1 – Nasce uma empresa para trabalhar com madeira

Carlos trabalhou durante muitos anos fornecendo materiais para pequenas construtoras.

Com o tempo percebeu que havia uma demanda frequente por produtos como:

  • tábuas;
  • vigas;
  • caibros;
  • ripas;
  • pranchas;
  • madeira para telhados;
  • madeira para formas;
  • madeira serrada para diferentes finalidades.

Em vez de apenas intermediar essas vendas, decidiu criar seu próprio negócio.

Nascia a Madeira Forte Comércio e Beneficiamento Ltda.

A ideia inicialmente parecia simples:

comprar madeira em tora, serrar, beneficiar e vender.

Mas Carlos logo percebeu que uma empresa que trabalha com madeira precisa controlar muito mais do que compras e vendas.

Por exemplo:

Quanto de madeira entrou no pátio?

Quanto custou cada metro cúbico?

Quanto da tora virou madeira vendável?

Quanto virou serragem ou resíduo?

Quanto custou transformar a madeira?

Quais impostos incidem sobre a operação?

Quanto realmente sobra de lucro depois da venda?

É justamente aí que entra a contabilidade.

Qual CNAE usar para uma madeireira?

Antes dos lançamentos contábeis, existe uma questão importante: o que exatamente a empresa faz?

O termo madeireira é utilizado popularmente para negócios bastante diferentes.

Uma empresa pode somente comprar madeira pronta e revendê-la.

Outra pode receber toras e realizar o desdobramento.

Outra pode beneficiar madeira já serrada.

E ainda existem empresas envolvidas com silvicultura, exploração florestal ou fabricação de produtos de madeira.

A CNAE possui, por exemplo, a subclasse 1610-2/01 – Serrarias com desdobramento de madeira, que compreende a produção de madeira bruta desdobrada ou serrada em bruto. Também existe a subclasse 1610-2/02 – Serrarias sem desdobramento de madeira, que contempla determinadas operações com madeira resserrada, aplainada, seca ou lixada.

Portanto, não devemos escolher o CNAE apenas porque o estabelecimento é conhecido como uma “madeireira”.

A atividade efetivamente exercida precisa ser analisada.

Isso é importante porque o tipo de atividade pode afetar:

  • tributação;
  • licenciamento;
  • emissão de documentos fiscais;
  • obrigações ambientais;
  • enquadramento no Simples Nacional;
  • forma de controlar os estoques.

No nosso estudo fictício, a Madeira Forte realizará transformação da madeira, além da posterior comercialização.

Fase 2 – Capital inicial da madeireira

Carlos decide iniciar a empresa com R\$ 100.000,00.

O dinheiro é depositado na conta bancária da Madeira Forte.

Lançamento contábil

Débito – Banco: R\$ 100.000,00
Crédito – Capital Social: R\$ 100.000,00

O primeiro balanço é extremamente simples.

Ativo

Banco: R\$ 100.000,00

Patrimônio Líquido

Capital Social: R\$ 100.000,00

Total do Ativo: R\$ 100.000,00

Total do Passivo + Patrimônio Líquido: R\$ 100.000,00

A empresa já possui patrimônio, mas ainda não possui madeira.

Fase 3 – Compra das máquinas para trabalhar a madeira

Carlos precisa montar a estrutura da serraria.

Para simplificar nosso exemplo, vamos considerar a compra de máquinas e equipamentos no valor total de R\$ 40.000,00, pagos à vista.

Lançamento

Débito – Máquinas e Equipamentos: R\$ 40.000,00
Crédito – Banco: R\$ 40.000,00

Depois dessa compra, o dinheiro disponível diminui.

Porém, isso não significa que a empresa perdeu R\$ 40 mil.

Ela apenas transformou um ativo em outro.

Antes havia:

dinheiro no banco.

Agora existe:

máquina utilizada para transformar madeira.

A máquina permanecerá sendo utilizada durante vários períodos e seu custo será reconhecido gradualmente por meio da depreciação.

Fase 4 – A primeira compra de madeira

Chegou o momento de adquirir a matéria-prima.

A Madeira Forte compra 20 m³ de madeira em tora por R\$ 24.000,00, a prazo.

Lançamento

Débito – Estoque de Madeira em Tora: R\$ 24.000,00
Crédito – Fornecedores: R\$ 24.000,00

Um erro comum seria imaginar que a compra de R\$ 24 mil automaticamente representa R\$ 24 mil de despesa.

Não necessariamente.

A madeira ainda está no estoque.

Ela representa um recurso da empresa que será utilizado para gerar produtos e receitas futuramente.

O CPC 16 estabelece que os estoques abrangem mercadorias adquiridas para revenda, materiais utilizados na produção, produtos em processamento e produtos acabados. Também estabelece que o custo pode incluir valores diretamente relacionados à aquisição e transformação.

E os impostos pagos na compra da madeira?

Aqui aparece um detalhe muito importante da contabilidade.

Nem todo imposto existente na nota fiscal necessariamente vira custo da madeira.

De forma geral, o CPC 16 determina que o custo de aquisição inclui tributos não recuperáveis, enquanto tributos posteriormente recuperáveis pela empresa não integram o custo da mesma maneira.

Por isso, para contabilizar corretamente uma compra de madeira, o contador precisa analisar a operação.

Dependendo do regime tributário e das características da compra, pode ser necessário identificar:

  • valor da mercadoria;
  • ICMS;
  • IPI;
  • frete;
  • seguro;
  • descontos;
  • outros valores diretamente relacionados à aquisição.

No nosso exemplo didático, vamos ignorar créditos tributários específicos para manter o cálculo mais fácil de acompanhar.

O frete para trazer a madeira faz parte do custo?

Para transportar as toras até a empresa, Carlos paga R\$ 3.000,00 de frete.

Como esse transporte é necessário para colocar a matéria-prima na localização em que será utilizada, vamos incorporá-lo ao estoque neste estudo.

Lançamento

Débito – Estoque de Madeira em Tora: R\$ 3.000,00
Crédito – Banco: R\$ 3.000,00

Agora temos:

ComponenteValor
Compra da madeiraR\$ 24.000,00
Frete de entradaR\$ 3.000,00
Custo acumuladoR\$ 27.000,00

A Madeira Forte possui 20 m³ de madeira em tora custando R\$ 27.000,00 dentro das premissas do nosso exemplo.

Fase 5 – A madeira entra na produção

Agora as toras serão retiradas do pátio e levadas para o processo produtivo.

Toda a madeira adquirida será utilizada.

Transferência para produção

Débito – Produtos em Elaboração: R\$ 27.000,00
Crédito – Estoque de Madeira em Tora: R\$ 27.000,00

Observe algo interessante.

Os R\$ 27.000,00 ainda não apareceram como custo da madeira vendida.

A empresa apenas transferiu o valor entre diferentes etapas do estoque.

Antes era:

madeira em tora.

Agora é:

madeira em processamento.

Mão de obra para cortar e beneficiar a madeira

A empresa gasta R\$ 5.000,00 com mão de obra diretamente relacionada à produção.

Para simplificar o estudo:

Lançamento

Débito – Produtos em Elaboração: R\$ 5.000,00
Crédito – Banco: R\$ 5.000,00

O custo acumulado passa para:

R\$ 27.000,00 + R\$ 5.000,00 = R\$ 32.000,00

Energia utilizada pelas máquinas

Serras e demais equipamentos consomem energia.

Vamos considerar R\$ 2.000,00 de energia elétrica relacionada à produção, ainda não paga.

Lançamento

Débito – Produtos em Elaboração: R\$ 2.000,00
Crédito – Contas a Pagar: R\$ 2.000,00

Custo acumulado:

R\$ 34.000,00

Depreciação das máquinas

Também vamos considerar R\$ 1.000,00 de depreciação das máquinas utilizadas na produção.

Lançamento

Débito – Produtos em Elaboração: R\$ 1.000,00
Crédito – Depreciação Acumulada: R\$ 1.000,00

Agora temos:

Custo da produçãoValor
Madeira e frete de entradaR\$ 27.000,00
Mão de obraR\$ 5.000,00
Energia industrialR\$ 2.000,00
DepreciaçãoR\$ 1.000,00
Custo totalR\$ 35.000,00

O CPC 16 admite no custo dos estoques produzidos os custos de transformação relacionados à produção, incluindo mão de obra direta e alocação sistemática de custos indiretos de fabricação.

De 20 m³ de tora não surgiram 20 m³ de madeira serrada

Depois da produção ocorre algo extremamente importante.

A empresa comprou 20 m³ de madeira em tora, mas terminou o processo com apenas 12 m³ de madeira serrada pronta para venda.

Isso acontece porque o processamento pode gerar:

  • serragem;
  • costaneiras;
  • aparas;
  • cortes;
  • peças defeituosas;
  • resíduos;
  • perdas de umidade;
  • outros subprodutos.

O rendimento da madeira influencia diretamente seu custo.

O custo total foi:

R\$ 35.000,00

Produção final:

12 m³

Portanto:

R\$ 35.000 ÷ 12 = R\$ 2.916,67 por m³

Cada metro cúbico de madeira serrada passou a ter custo aproximado de R\$ 2.916,67.

Transferência para o estoque de madeira serrada

Agora a produção terminou.

Lançamento

Débito – Estoque de Madeira Serrada: R\$ 35.000,00
Crédito – Produtos em Elaboração: R\$ 35.000,00

A empresa possui agora:

12 m³ de madeira serrada

com custo contábil total de:

R\$ 35.000,00

Fase 6 – A primeira venda de madeira

Depois de algumas negociações, uma construtora compra 8 m³ de madeira serrada.

Preço de venda:

R\$ 5.000,00 por m³

Quantidade:

8 m³

Valor total:

R\$ 40.000,00

Para facilitar, vamos considerar pagamento à vista.

Registro da receita

Débito – Banco: R\$ 40.000,00
Crédito – Receita com Venda de Madeira: R\$ 40.000,00

Carlos poderia olhar para a conta e comemorar:

“Ganhei R\$ 40 mil!”

Mas isso estaria errado.

Faturamento não significa lucro.

Precisamos retirar do estoque o custo da madeira vendida.

Cada metro cúbico custava aproximadamente:

R\$ 2.916,67

Foram vendidos 8 m³:

8 × R\$ 2.916,67 = R\$ 23.333,33 aproximadamente

Baixa da madeira vendida

Débito – Custo dos Produtos Vendidos: R\$ 23.333,33
Crédito – Estoque de Madeira Serrada: R\$ 23.333,33

Agora podemos enxergar a diferença.

Venda

R\$ 40.000,00

Custo da madeira vendida

R\$ 23.333,33

Lucro bruto antes das demais despesas e impostos

R\$ 16.666,67

Quanto de madeira ainda existe no estoque?

A empresa produziu:

12 m³

Vendeu:

8 m³

Restaram:

4 m³

Valor aproximado:

4 × R\$ 2.916,67 = R\$ 11.666,67

Portanto, aproximadamente R\$ 11.666,67 continuam registrados no estoque.

Esse é um bom exemplo de por que dinheiro e lucro são coisas diferentes.

Parte dos recursos da empresa não está no banco.

Está fisicamente no pátio, na forma de madeira.

Fase 7 – Quais impostos uma madeireira paga?

Agora chegamos a uma das perguntas mais importantes.

Qual é o imposto sobre madeira?

Não existe uma única resposta.

A tributação pode mudar conforme:

  • regime tributário;
  • CNAE;
  • NCM da madeira;
  • estado;
  • origem e destino;
  • compra ou venda;
  • revenda ou industrialização;
  • benefícios fiscais;
  • tipo de madeira;
  • operação interna ou interestadual.

Uma empresa que simplesmente compra madeira pronta e revende pode ter tratamento diferente de uma empresa que transforma a matéria-prima.

Madeireira no Simples Nacional: comércio ou indústria?

Essa diferença é muito interessante.

A Lei Complementar nº 123 determina que, para fins de segregação das receitas no Simples Nacional, a revenda de mercadorias é tributada pelo Anexo I, enquanto as receitas decorrentes da venda de mercadorias industrializadas pelo próprio contribuinte são tributadas pelo Anexo II.

Portanto, imagine duas empresas.

Madeireira A

Compra tábuas prontas e apenas revende.

Essa receita pode possuir característica de comércio.

Madeireira B

Compra madeira em tora, realiza o desdobramento e posteriormente vende a madeira produzida.

Existe uma atividade de industrialização.

No Simples Nacional, a primeira faixa atualmente prevista para comércio no Anexo I é de 4%, enquanto a primeira faixa do Anexo II para indústria é de 4,5%, ambas para RBT12 de até R\$ 180.000,00.

Mas atenção:

isso não significa que toda madeireira sempre pagará 4% ou 4,5%.

As tabelas são progressivas e a alíquota efetiva varia conforme o faturamento acumulado, além das particularidades de cada operação.

Calculando o imposto da nossa madeireira

Para continuar nosso estudo, vamos imaginar que:

  • a Madeira Forte seja optante pelo Simples Nacional;
  • a receita em estudo esteja corretamente classificada como industrial;
  • a empresa esteja na primeira faixa do Anexo II;
  • não existam, para este exemplo, situações especiais de segregação;
  • utilizaremos a alíquota didática de 4,5%.

Venda:

R\$ 40.000,00

Alíquota:

4,5%

Imposto simplificado:

R\$ 40.000 × 4,5% = R\$ 1.800,00

Lançamento da provisão

Débito – Tributos sobre Vendas: R\$ 1.800,00
Crédito – Simples Nacional a Recolher: R\$ 1.800,00

Quando ocorrer o pagamento:

Débito – Simples Nacional a Recolher: R\$ 1.800,00
Crédito – Banco: R\$ 1.800,00

Agora fica evidente algo que muitas vezes confunde novos empresários.

A empresa recebeu R\$ 40 mil.

Mas uma parte desse dinheiro precisará financiar:

  • reposição da madeira;
  • salários;
  • energia;
  • despesas;
  • impostos;
  • manutenção;
  • investimentos.

O dinheiro recebido de uma venda não representa automaticamente dinheiro disponível para os sócios.

E o ICMS sobre madeira?

A comercialização de mercadorias está dentro do campo do ICMS.

Mas seria perigoso escrever que:

“o ICMS da madeira é sempre X%”

porque não existe uma única alíquota aplicável a todas as operações envolvendo madeira.

É necessário analisar, entre outros elementos:

Qual é o produto?

Qual é a NCM?

A operação ocorre dentro do mesmo estado?

É uma venda interestadual?

Existe substituição tributária?

Há benefício fiscal estadual?

A empresa é optante pelo Simples Nacional?

Além disso, madeira em tora, madeira serrada, portas, móveis e outros produtos de madeira não são necessariamente a mesma mercadoria para fins fiscais.

Por isso, a classificação correta do produto é fundamental.

E o IPI?

Quando existe industrialização também pode surgir a necessidade de analisar o IPI.

Isso não significa afirmar que toda operação de uma madeireira terá determinado percentual de IPI.

Novamente será necessário observar:

  • produto;
  • classificação fiscal;
  • processo realizado;
  • regime tributário;
  • legislação aplicável.

No próprio Anexo II do Simples Nacional existe parcela de repartição correspondente ao IPI nas regras aplicáveis à indústria.

Por isso é importante distinguir uma empresa que somente comercializa madeira de outra que realiza efetivamente uma etapa industrial.

Fase 8 – Despesas administrativas e frete da venda

Além dos impostos, a Madeira Forte possui outras despesas.

Vamos considerar:

Despesas administrativas: R\$ 3.000,00

Lançamento

Débito – Despesas Administrativas: R\$ 3.000,00
Crédito – Banco: R\$ 3.000,00

Agora imagine também que a empresa pague R\$ 2.000,00 para entregar a madeira ao cliente.

Para o nosso exemplo, trataremos esse frete como despesa comercial.

Lançamento

Débito – Despesas com Frete sobre Vendas: R\$ 2.000,00
Crédito – Banco: R\$ 2.000,00

Perceba a diferença:

Frete para trazer a matéria-prima

Foi incorporado ao custo da madeira.

Frete para entregar a mercadoria já vendida

Foi tratado neste exemplo como despesa de venda.

Essa distinção influencia diretamente a análise do custo e da margem.

Pagamento do fornecedor

Agora a empresa paga os R\$ 24.000,00 devidos pela compra da madeira.

Lançamento

Débito – Fornecedores: R\$ 24.000,00
Crédito – Banco: R\$ 24.000,00

Nenhuma nova despesa surge nesse momento.

A empresa apenas paga uma dívida que já estava registrada.

Isso demonstra um conceito essencial:

saída de dinheiro não é necessariamente despesa.

Da mesma forma:

entrada de dinheiro não é necessariamente receita.

Fase 9 – DRE da madeireira

Depois de todas essas operações, podemos montar uma Demonstração do Resultado simplificada.

Demonstração do Resultado

DescriçãoValor
Receita com venda de madeiraR\$ 40.000,00
(-) Custo dos produtos vendidosR\$ 23.333,33
Lucro brutoR\$ 16.666,67
(-) Despesas administrativasR\$ 3.000,00
(-) Frete sobre vendasR\$ 2.000,00
(-) Tributos do exemploR\$ 1.800,00
Resultado do períodoR\$ 9.866,67

Agora a situação fica muito diferente daquela primeira impressão.

Carlos faturou:

R\$ 40.000,00

Mas o resultado do nosso estudo foi:

R\$ 9.866,67

Por isso:

vender R\$ 40 mil em madeira não significa ganhar R\$ 40 mil.

Para descobrir quanto a empresa realmente ganhou, é preciso considerar o custo da madeira, transformação, despesas e impostos.

Fase 10 – Balanço Patrimonial da madeireira

Após as operações e considerando o pagamento do DAS do nosso exemplo, temos:

Ativo

Banco: R\$ 61.200,00

Estoque de madeira serrada: R\$ 11.666,67

Máquinas e equipamentos: R\$ 40.000,00

(-) Depreciação acumulada: R\$ 1.000,00

Total do Ativo

R\$ 111.866,67

Passivo

Energia a pagar: R\$ 2.000,00

Total do Passivo

R\$ 2.000,00

Patrimônio Líquido

Capital Social: R\$ 100.000,00

Resultado acumulado: R\$ 9.866,67

Total do Patrimônio Líquido

R\$ 109.866,67

Conferência

Ativo: R\$ 111.866,67

Passivo + Patrimônio Líquido:

R\$ 2.000,00 + R\$ 109.866,67

= R\$ 111.866,67

O balanço fecha.

O estoque de madeira precisa conversar com o estoque físico

Existe uma particularidade muito importante nesse setor.

Não basta registrar:

Estoque de madeira: R\$ 100.000

A empresa precisa saber o que realmente existe fisicamente.

Dependendo da operação, pode ser necessário acompanhar:

  • espécie;
  • comprimento;
  • espessura;
  • largura;
  • volume em m³;
  • quantidade de peças;
  • qualidade;
  • lote;
  • estágio do processo produtivo.

Uma estrutura poderia apresentar:

Madeira em tora

Madeira em processamento

Madeira serrada

Madeira beneficiada

Produto disponível para venda

Imagine que a contabilidade demonstre 100 m³ de madeira, enquanto uma contagem física encontre apenas 70 m³.

Existe uma diferença que precisa ser investigada.

Pode ter ocorrido:

  • perda;
  • quebra;
  • erro de medição;
  • venda não registrada;
  • erro de entrada;
  • desperdício;
  • problema de conversão;
  • furto;
  • falha operacional.

Madeira nativa e controle ambiental

No setor madeireiro existe outra questão que não pode ser ignorada: a origem da madeira.

O Ibama informa que o Documento de Origem Florestal — DOF — constitui licença obrigatória para transporte e armazenamento de produtos florestais de origem nativa sujeitos ao controle. O DOF+ Rastreabilidade permite acompanhar a origem e movimentação desses produtos ao longo da cadeia.

Isso gera um ponto bastante interessante do ponto de vista contábil e gerencial:

o estoque físico, os registros contábeis, os documentos fiscais e os controles ambientais precisam apresentar coerência.

Não se trata apenas de saber quanto a madeira vale.

Também é necessário conhecer:

qual madeira entrou, de onde veio, quanto entrou, quanto foi transformado e quanto saiu.

E se a empresa plantar a própria madeira?

Nosso estudo considerou uma empresa que compra madeira de fornecedores.

Mas imagine uma companhia que plante árvores com objetivo de produzir madeira.

Nesse caso aparece outro tema contábil: ativo biológico.

O CPC 29 apresenta expressamente como exemplo:

árvores de uma plantação → madeira → madeira serrada ou celulose.

O pronunciamento trata o ativo biológico e o produto agrícola até o ponto de colheita; posteriormente entram em cena normas como o CPC 16 para estoques e processamento.

Portanto, uma empresa que planta, corta, processa e vende madeira pode possuir uma estrutura contábil muito mais complexa do que uma simples loja que compra tábuas prontas para revenda.

Reforma Tributária: o que muda para a madeira em 2026?

Este tema ganhou ainda mais importância em 2026.

O Brasil está na fase de transição da Reforma Tributária do Consumo.

A Receita Federal informa que 2026 funciona como ano de teste da CBS – Contribuição sobre Bens e Serviços e do IBS – Imposto sobre Bens e Serviços.

As alíquotas de teste previstas são:

CBS: 0,9%

IBS: 0,1%

A Receita informa ainda que, observadas as condições legais e o cumprimento das obrigações acessórias, a sistemática de 2026 possui regras específicas de compensação e dispensa de recolhimento relacionadas ao período de teste.

Portanto, não seria correto simplesmente somar:

4,5% do Simples + 1% de CBS/IBS

e concluir que essa é automaticamente a carga tributária da madeireira.

O tratamento depende do regime e das regras de transição aplicáveis.

CBS e IBS na nota fiscal em 2026

A Reforma Tributária também altera os documentos fiscais.

A Receita Federal publicou orientações para 2026 prevendo a adaptação dos documentos fiscais eletrônicos para informações de CBS e IBS.

Em agosto de 2026 houve uma atualização relevante.

Receita Federal e Comitê Gestor do IBS esclareceram que a obrigatoriedade das informações permanece conforme o cronograma, mas o início de determinadas validações automáticas que poderiam gerar rejeição dos documentos foi adiado.

Isso mostra por que empresas que trabalham com madeira também precisarão acompanhar a Reforma Tributária.

Não é apenas uma mudança de nome de impostos.

Ela pode afetar:

  • sistemas de emissão de notas;
  • cadastro de produtos;
  • classificação fiscal;
  • formação de preços;
  • créditos tributários;
  • documentos fiscais;
  • sistemas contábeis;
  • planejamento tributário.

E o ICMS vai acabar?

Não imediatamente.

A Reforma Tributária possui um período de transição.

Segundo o cronograma apresentado pela Receita Federal, 2026 é o ano teste de CBS e IBS.

A partir de 2027 novas etapas entram em vigor.

Entre 2029 e 2032 ocorre a substituição gradual de ICMS e ISS pelo IBS.

A implementação integral do novo modelo está prevista para 2033.

Portanto, durante vários anos empresas do setor de madeira precisarão conviver com regras de transição.

Isso torna ainda mais importante acompanhar a legislação atualizada.

Madeira, impostos e formação do preço de venda

Imagine que Carlos descubra que produzir determinado tipo de madeira custa:

R\$ 2.916,67 por m³.

Ele poderia pensar:

“Se vender por R\$ 3.100,00 estou lucrando.”

Talvez não.

Ainda existem:

  • impostos;
  • despesas administrativas;
  • comissão;
  • frete de entrega;
  • perdas;
  • manutenção;
  • despesas financeiras;
  • custos de armazenamento;
  • margem desejada.

Por isso o preço de venda não deve ser formado apenas adicionando alguns reais sobre o preço de compra da tora.

Em uma madeireira industrial, precisamos descobrir quanto custa transformar a madeira em produto vendável.

Por que o rendimento da madeira é tão importante?

Esse talvez seja um dos indicadores mais relevantes para a gestão da serraria.

Imagine duas empresas.

Madeireira A

Compra 20 m³ de tora e consegue gerar 14 m³ de produtos comercializáveis.

Madeireira B

Compra os mesmos 20 m³, pelo mesmo preço, mas produz apenas 10 m³.

Mesmo que as duas gastem exatamente o mesmo valor na compra da madeira, o custo por metro cúbico será diferente.

Quanto menor o aproveitamento, maior tende a ser o custo unitário do produto aproveitável, consideradas as demais condições.

Por isso, o contador pode ajudar o empresário a enxergar algo que o extrato bancário nunca mostrará sozinho:

quanto custa a ineficiência do processo produtivo.

E a serragem pode gerar receita?

Nem tudo que sobra da madeira necessariamente é lixo.

Dependendo da operação podem existir:

  • serragem;
  • cavacos;
  • aparas;
  • costaneiras;
  • maravalha;
  • peças menores;
  • resíduos aproveitáveis.

Alguns desses materiais podem ser utilizados pela própria empresa ou comercializados.

Nesse caso, a contabilidade e a gestão de custos precisam avaliar corretamente esses subprodutos.

O CPC 16 possui regras relacionadas à atribuição dos custos quando um processo produtivo gera produtos simultaneamente ou produtos principais e subprodutos.

Isso significa que simplesmente jogar todo resíduo na conta “perda” pode distorcer o resultado quando ele possui aproveitamento econômico.

Quais números o dono da madeireira deveria acompanhar?

Depois de organizar a contabilidade, Carlos poderia criar alguns indicadores.

Custo médio da madeira

Quanto custa cada metro cúbico disponível para venda?

Rendimento da tora

Quantos metros cúbicos vendáveis são produzidos para cada metro cúbico de matéria-prima?

Margem bruta

Quanto sobra da venda depois de retirar o custo do produto?

Estoque físico

Quantos metros cúbicos existem?

Estoque financeiro

Quanto dinheiro está aplicado nessa madeira?

Giro de estoque

Quanto tempo a madeira permanece parada?

Perdas

Quanto da matéria-prima deixa de gerar produto comercializável?

Impostos sobre faturamento

Quanto da receita precisa ser destinado ao pagamento de tributos?

Essas informações ajudam a transformar a contabilidade em ferramenta de gestão.

O erro de olhar apenas para o saldo bancário

Imagine que Carlos abra o aplicativo do banco e encontre:

R\$ 61.200,00

Ele poderia pensar:

“Tenho R\$ 61 mil de lucro.”

Mas sabemos que isso não é verdade.

A empresa ainda possui:

  • estoque;
  • máquinas;
  • contas a pagar;
  • despesas;
  • obrigações futuras.

Da mesma forma, uma empresa pode possuir R\$ 300 mil em madeira no pátio e apenas R\$ 20 mil no banco.

Isso não significa necessariamente que esteja dando prejuízo.

Significa que parte de seus recursos está aplicada em estoque.

Por isso:

Fluxo de Caixa

DRE

e

Balanço Patrimonial

respondem perguntas diferentes.

Afinal, quanto a madeireira ganhou?

Vamos voltar ao nosso exemplo.

A empresa vendeu:

R\$ 40.000,00

Mas tinha:

R\$ 23.333,33 de custo da madeira vendida

R\$ 3.000,00 de despesas administrativas

R\$ 2.000,00 de frete comercial

R\$ 1.800,00 de tributos no exemplo

Resultado:

R\$ 9.866,67

Portanto:

Receita não é lucro.

E:

dinheiro no banco não é necessariamente lucro.

Esses dois conceitos parecem simples, mas fazem enorme diferença na administração de qualquer empresa.

Conclusão: acompanhar a madeira é tão importante quanto acompanhar o dinheiro

Nosso estudo começou com R\$ 100 mil de capital.

Depois a Madeira Forte:

comprou máquinas;

comprou madeira em tora;

pagou o frete da matéria-prima;

transformou a madeira;

incorporou mão de obra;

utilizou energia;

reconheceu a depreciação;

produziu madeira serrada;

calculou seu custo por metro cúbico;

vendeu parte da madeira;

reconheceu o custo da venda;

apurou impostos;

pagou despesas;

montou a DRE;

e finalmente chegou ao Balanço Patrimonial.

Uma operação que aparentemente poderia ser resumida como:

“comprar madeira e vender madeira”

na realidade envolve diversas etapas contábeis.

E existe uma ideia central que podemos levar deste estudo:

na contabilidade de uma madeireira, não basta acompanhar quanto dinheiro entrou e saiu. É preciso acompanhar a madeira desde a compra até sua transformação, tributação e venda.

Quanto melhor for esse controle, mais facilmente a empresa conseguirá responder:

Quanto custa minha madeira?

Quanto existe no estoque?

Quanto estou perdendo no corte?

Quanto pago de imposto?

Quanto realmente ganho em cada venda?

Qual produto possui a melhor margem?

Meu preço de venda está correto?

Tenho dinheiro parado no estoque?

A empresa está realmente dando lucro?

Quando a contabilidade consegue responder essas perguntas, ela deixa de funcionar apenas como obrigação fiscal e passa a ser utilizada como uma verdadeira ferramenta para administrar o negócio.

Fontes oficiais para aprofundamento

As regras sobre estoques e custos de transformação podem ser consultadas no CPC 16 – Estoques. CPC 16 – Estoques

Para ativos biológicos e árvores destinadas à produção de madeira, consulte o CPC 29 – Ativo Biológico e Produto Agrícola. CPC 29

As regras do Simples Nacional estão previstas na Lei Complementar nº 123/2006. Lei Complementar nº 123/2006

Para acompanhar a transição da CBS e do IBS, a Receita Federal mantém uma área específica sobre a Reforma Tributária do Consumo. Reforma Tributária do Consumo – Receita Federal

Informações sobre origem e rastreabilidade de madeira nativa podem ser consultadas no DOF+ Rastreabilidade do Ibama. DOF+ Rastreabilidade – Ibama

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